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PARADA OBRIGATÓRIA – PREJUÍZO OU OPORTUNIDADE? 

No momento presente, em que somos diariamente bombardeados por todo tipo de informação sobre a Covid 19 – desde as de ordem científica, econômica, política ou mesmo as espirituais -, cá estou eu, absorvendo o que pede a minha natureza.

Obrigatoriamente limitar-me a um único espaço físico, a minha casa, tem significado para mim um universo de sensações – desde a insegurança, a preocupação, mas também a de algum tipo de conforto pessoal e psicológico.

Não apenas um súbito e necessário distanciamento que me impeça de abraçar a família e amigos, fato, mas a intuição da proximidade de uma força maior, impulsionando-me a decidir em correr ou ficar. Uma escolha.

Sim, correr do desgaste que tem se arrastado pelo tempo, o que vale para a maioria das pessoas, ou nos percebermos frente a frente, com mais ternura e compreensão.

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A música na minha vida

Busquei uma imagem que traduzisse a música na minha vida.

Veio-me uma fada – a minha fada.

Por sua permanência no meu tempo, e tão antiga quanto a própria música. Mas sobretudo por seu espírito contagiante e misterioso.

Posso também chamá-la de anjo da guarda ou de minha grande amiga.

Chegou bem cedo até mim. Veio voando e, aos meus olhos, com asas de borboleta.

Aos quatro anos iniciei os estudos de piano, mas, antes disso, já cantarolava em forma de gritinhos.

Considerada talentosa pelos professores, alguns deles chegaram a agradecer a quem me indicasse como aluna . A exemplo, o professor e maestro Pedro de Castro. Hoje, agradeço a generosa honra.

Chegou com rapidez o desenvolvimento – logo me vi diante de peças clássicas e exercícios técnicos complicados; esses últimos, sim, tocava com gosto e facilidade. Meus pais se orgulhavam.

Mas a dedicação por horas, como era exigido na ocasião, foi dividida com as brincadeiras de rua e um espírito curioso.

O que realmente cativava-me era a sensação de sentir e viver o exato momento em que a fadinha me buscava com seu condão mágico, levemente.

E atingia-me em cheio – passei a cantar pra mim mesma, sem perceber, em todos os lugares por onde passasse – nas ruas, no elevador, pelos corredores de escolas, no banheiro, claro.

Um episódio antigo renasce hoje em minha mente  – quando, aos meus nove anos, em viagem à noite para o Rio de janeiro com minha mãe, não parecia ter fim minha cantoria. Ela chamou-me a atenção, com receio de que eu acordasse os passageiros. Mas, pra nossa surpresa, contestaram, exigindo que eu continuasse. Cantei , e por um bom tempo, com a fada caçoando da situação.

Aos 10 anos, na madrugada, atravessava silenciosamente uma longa varanda, que cheirava a jasmim, até a biblioteca da minha mãe. Lá estava seu piano antigo de teclas de marfim, já na ocasião prometido a mim. Ele motivou-me a compor os poemas da minha mãe.

A cena se repetia, mamãe aprovava e estimulava. Mas, inesperadamente, ao voltar certo dia do colégio, encontrei a biblioteca vazia. Havia sido vendido por ela. Triste, muito triste.

Meu pai se encarregou logo de presentear-me com outro, o que ainda tenho.

Nunca mais compus.

E assim foi, até que chegasse minha adolescência.

Foi quando, no ritmo da juventude, minha mãe anunciou a chegada de um presente para o dia seguinte.

Ainda de camisola, eu e uma amiga disparamos em voo rasante até o tão aguardado objeto.

Nos detivemos diante de um sólido e pomposo instrumento – um órgão com pedaleira e dois andares de teclado. Uma alegria só.

Logo foi providenciado um professor e comigo o órgão ficou por muito tempo.

Mas, por uma razão e outra, foi levado para a casa dos meus pais, junto à natureza adornada por uma bela nascente.

Passados alguns anos, voltou para mim, trazendo-me de suas entranhas uma caranguejeira de pernas longas e cabeludas que, coitada, foi obrigada a abandonar seu lar, doce lar –e onde, de tão próximos, tornaram-se cúmplices na solidão.

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