Como fica a rotina após a aposentadoria?

Beth Neves – 13 de fevereiro de 2020

Há pouco mais de um ano aposentada – decisão na ocasião tomada com segurança e em paz –, não demorou muito para que eu me surpreendesse com uma nova rotina de vida – seja no lado prático ou pessoal.

O desejo inicial seria o de transformar meus dias como um barquinho navegando em mar manso – abrir um bom livro, voltar a tocar no piano as velhas peças musicais, estar mais com amigos e família, despreocupadamente.

Mas logo, logo me veio a necessidade de acelerar novamente – não só pelos imprevistos, mas também por uma força de atração que hoje posso chamar de desejo – o do “fazer”, de continuar “sendo”.

Senti que a vida continuava pulsando, demandando sangue novo, novas respostas.

Desafios foram se aproximando, enfrentando-me, cara a cara.

E nesses súbitos momentos de discernimento, distingui um novo caminho.

E que esse caminho, na verdade, dividia-se em vários outros, com diferentes possibilidades de direção – inclusive o da rotina, mas sem o rótulo da obrigação.

Aproveitei para também me dividir, se desejava trilhá-los todos.

Hoje aceito e desejo ser várias, mas por inteiro. No meu ritmo, tentando me desvencilhar dos grilhões do passado, sem a necessidade de me adequar a modelos, aceitando a limitação natural do meu corpo.

Provar cada caminho desses com o que a vida nos oferece de graça.

Porém, principalmente, colocando-me à frente de mim mesma como principal condutora.

Sim, eles são vários. O da família, o dos amigos, o da própria rotina do dia a dia, do obscuro.

E que nesse trilhar se fortaleça o desejo da minha construção – amar a vida, entendendo e aceitando sua brevidade, nossa incompletude e imperfeição. Mas nada que signifique estarmos neutralizados de algum tipo de tristeza – rasa ou profunda -, da melancolia ou decepção. A forma de lidar é que vai mudando, nos transformando.

Projetos, sim. Mas que o momento deles sobrevenha ao do exercício do amor e respeito – a nós próprios, ao próximo.

Primeiramente existo eu. Possuo um belo e precioso tempo e que nele caibam todas as rotas que puder tomar.

Reservo-me, assim, o direito de descer do trem na estação que desejar, saborear o risco do novo, exorcizando o medo da solidão carnuda.

Abrir-me para o vigor do verão, para a instrospecção do inverno, a esperança e o colorido da primavera, a poesia do outono.

Que venha agora a rotina do pensar, do criar, do direito de reviver meus segredos, de amar – fiel a quem sempre fui em essência.

Algo que ainda nos falte naturalmente brota, se assim o desejarmos – seja no aspecto prático, intelectual ou espiritual.

Seja com a casa, que diariamente exige limpeza; com a administração do tempo, do dinheiro, ou até mesmo navegar naquele mesmo barquinho em mar manso – como também me preparar para uma eventual tormenta. Ainda, curtir e muito a família -, nunca deixar de estar com os amigos, buscar novas ideias, realizar projetos – pequenos ou não.

São vários os caminhos… E que sejam saboreados, todos. Com orgulho, dignidade e liberdade.

As filhas-pássaros continuam voando – e cada vez mais alto.

Não as atinjo mais. Apenas algumas vezes sinto o roçar de suas asas nos meus sonhos e o leve toque no meu rosto de suas peninhas trazidas pelo vento. E isso é bom.

Então prossigamos – colocar na ponta do lápis os desejos, os planos, com seus prós e os contras, e pesá-los dentro de nossas realidades.

Provar do que se conseguiu criar, sem cobranças. Exigir de nós a reserva de um tempo. E acrescentar às folhas de papel todos os anseios, sem se esquecer de deixar uma em branco para o muito que ainda virá. Cumprir, tentar cumprir. Com respeito aos limites, claro, mas sem que signifiquem decadência. Com lucidez, disciplina e perseverança, nos permitindo dentro do possível e do verdadeiro.

Conhecemos nosso potencial – a criatividade realizável está em tudo e em todos. Mas é necessário gerenciá-la. Na verdade, é necessário gerenciar toda uma vida percorrida, tão breve. Permitir-nos o erro, com leveza, prazer, simplicidade e firmeza.

Basta a largada para que surjam novas paisagens.

Vamos em frente.

 

Beth Neves – 13 de fevereiro de 2020

 

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