Bichos e solidão

Não havia mais saída, precisava e desejava voar, partir.

Mesmo com uma das asas quebrada, o melhor seria buscar a altura. Bem longe, para que, lá de cima, avistasse tudo aquilo que pretendia deixar – que tanto pertenceu a mim, e que havia amado, mas que daqui de baixo havia perdido de vista.

Ao contrário, distante estaria mais próxima – em pensamento, na imaginação.

E assim foi, e assim avancei – com determinação e leveza.

Num só impulso, voei, voei, voei.

Até que subitamente percebi que doía o peito, perdia aos poucos a respiração e a tão sonhada altura.

Fui descendo, plainando como um paraquedista, com cautela e suavidade, já pensando em minha proteção – minha primeira arma da preservação.

E foi numa densa floresta que me vi obrigada a pousar.

Com a asa ainda mais desintegrada, me vi perdida.

Arrastei-me em terra lamacenta, raízes submersas pareciam me sufocar, quando, já frouxa, vislumbrei a exuberância das cores das flores, a solidez das copas das árvores frondosas – donas de si mesmas.

E foram elas, as árvores, as minhas primeiras companheiras que, em espírito e milagrosamente, devolveram-me a asa que pensei já não existisse.

Continuei, com mais leveza e firmeza, a solitária caminhada.

Senti-me feliz, forte, única – eu, a floresta e o caminho desconhecido.

Adormeci.

Pela manhã, aos poucos, fui sendo despertada por um farfalhar de folhas secas – diante dos meus olhos surgiu uma cobra peçonhenta, perversa e disposta a maliciosamente interromper meu sonho bom.

Na espinha, um calafrio mortal me abateu – eu, um farto alimento – entregar-me?

Não, nunca. Livre, não poderia me render a ameaças do insólito. Foi quando em pensamento, num só golpe, a morte certeira, em forma de águia, fisgou a repugnância em forma de bicho, a serpente.

Agradeci, chorei, banhei-me ao nascer do dia em água doce e fria. Magicamente devolvi-me a ousadia de prosseguir.

Borboletas em bando adornaram-me, saboreei frutas silvestres da mata, bebi fartamente água do riacho –  um momento só meu, até que surgissem as primeiras estrelas.

Novamente agradeci pela escolha do voo. Confiei na minha força, ou mesmo na proteção do acaso.

Deitei-me abraçada com meu encantamento ao brilho da lua, os músculos derreteram ao calor do meu corpo e gostosamente se afundaram minhas pálpebras.

Mas na mesma clareza da bela luz da lua, invadiu-me um cheiro podre de morte bandida – dois olhos amarelos cravaram os meus, prontos para o abate.

Fugir não seria o meu caminho seguro, voltaria como presa a qualquer momento. Entreolhamo-nos, paralisadas nossas imagens.

Mais uma vez não desisti de lutar – nem ele, o lobo.

Contei com o nada, esperei do invisível e repentinamente por mim senti o mais profundo amor.

Foi quando, desarmado, o lobo transformou-se em cigarra, iniciando seu longo canto até a madrugada.

Cantou, cantou, cantou – até morrer por mim, até morrer de mim.

Mais uma vez venci. Foi-se a armadilha.

Fácil foi perceber que, a partir daí, nunca estaria livre de algum outro intruso faminto, ainda que entregue à calma e à beleza do arvoredo.

Manteria-me só – eu, minhas companheiras e o silêncio.

Mas a tentativa de invasão do mal perseverou, não bastou a minha vitória.

Ainda que em estado de vigília por toda a noite, preparei-me e pressenti, pela dor, o súbito e possível avanço de algo sinistro, dessa vez sem falhas.

Sim, chegou – ela, a matilha selvagem, de enormes presas e contorcidas garras.

Sem piedade, avançaram contra mim, dilaceraram gananciosamente um a um de meus órgãos. Beberam do meu sangue ainda quente, cuspiram minhas unhas, obstinadamente chuparam os meus olhos – como em devaneio fui desparecendo, me perdendo.

Mas restou, abandonado, o coração que freneticamente ainda pulsava, e cada vez mais, com sede de vida, em descontrole.

Clamei pela Força Maior, mas desisti, entreguei-me.

Para atravessar os céus, o pequeno coração foi inflando, inflando até transformar-se num enorme balão vermelho, miserável, clemente, mas latente e pleno de ternura.

Ternura que me levou a outros corações – os corações de quem havia deixado. Me enterneci, esperei vir o que tanto temia, com a alma enfraquecida.

Decisivamente foi quando, apavorados, foram se retirando em disparada os cães, já saciados de mim.

E foi aquela parte vermelha da morte ainda tão viva, latejante, que os fez acuados, envergonhados de si mesmos, frágeis.

Pouco a pouco foram novamente se aproximando, dessa vez em comunhão com minha dor – compadeceram-se.

Vomitaram meus pedaços e, como humanos, foram me recompondo as vísceras, os órgãos, o cérebro, o sangue, a esperança.

Perdi o temor – chamei-os de amigos, os coloquei no colo, dei-lhes de comer. Entramos, eu e os inimigos, em absurdo e recíproco enternecimento.

Esvaiu-se de mim o desejo de ficar. Precisaria voltar.

Pássaros em revoada sonora, libélulas gigantes, cavalos alados, borboletas, tenras flores, minhas árvores – em arco celeste, solenemente, cortejaram minha partida, a minha volta. Como também as docilizadas e apaziguadas feras.

Seriam lá de baixo todos bem-vindos, com outro jeito de amar.

Fui voltando, descendo, deliciosamente – cheguei em total felicidade.

E para sempre.

Beth Neves – jornalista aposentada, escritora, professora de canto

Julho de 2020

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