A natureza que habita em mim

Beth Neves – 15 de abril de 2020

A minha mais antiga e primeira proximidade com a natureza se deu no nascimento, em Los Angeles.

A ideia de cidade grande não parece conferir a um quintal, mas, sim, ao da minha casa. E com  sol e plantas.

Voltando aos dois anos para o Brasil, moramos em casa de campo, no Barreiro – bairro que, na ocasião, encantava por suas chácaras, sem qualquer poluição ambiental ou sonora.

No jardim, bem junto ao vigoroso tronco do abacateiro, confiante, aguardava por horas o presente do saci-pererê – minha proximidade com a natureza engatinhando.

A casa, incendiada, foi engolida. Lembro os gritos da Nêga Dindinha que, em pleno fogaréu, se recusava em deixá-la. Significou a primeira ruptura de uma parte de mim.

Logo, nos mudamos pra Santa Tereza, também com quintal, mas sem o mesmo aconchego verde de antes, o que já me fazia falta.

Compensava essa lacuna com os olhares trocados com a minha vizinha de varanda, uma criança de cabelos louros e enrolados que, como eu, tinha sede de brincar. Não passou disso, troquei minha saudade do Barreiro pelo carrinho de rolimã.

Rumamos – pai, mãe, e três irmãos – para uma casa grande, relativamente perto de terreno baldio, por onde corria um rio. Sempre lá estava eu recolhendo os supostos peixinhos. Hoje, uma das mais poluídas avenidas da cidade. Mas, pra minha surpresa, os “peixinhos” se transformaram em sapinhos –  desilusão ou diversão, não fazia muita diferença.

Nas noites dessa mesma casa, certo era o compromisso com minha joaninha pintadinha. E nosso papo era longo, longo.

Depois foi comprada a casa da Dona Olga, ao lado – linda, antiga. Por um bom tempo pudemos saborear os frutos do pomar.

Mas, pra que a nossa casa se tornasse ainda maior, foi derrubado o pequenino e cheiroso recanto. Perdemos a guerra.

Substituí essa perda pela nova casa grande – pelo cheiro de jasmim, pelos pés de manacá, as árvores frondosas e, mais que tudo, por meu pé de goiaba – aliado nas horas de refúgio, dos pensamentos, das convicções de uma pré-adolescente, ou simplesmente na intenção de me esconder. Um amigão. Também pelos cachorros, gatos, veados, coati e gansos. E como se não bastasse, dos cachorros de rua que ternamente eu acolhia.

Buscava mais – chegou o tempo do vento e da chuva. Bastasse a ameaça de um temporal para escapar do especial, transporte colegial. De outro bairro, ia até o Prado a pé, minha casa, contra a enxurrada que descia enfurecida a Rua Esmeraldas, em contramão ao meu corpo de menina. Mas a força de suas águas era vencida pela força do meu contentamento. Nem o peso dos sapatos Vulcabrás e as meias grossas encharcadas, os trovões e raios me impediriam – entrega ao desafiador cenário, absoluta.

Cresci. Mas nem tanto mudei. Nos primeiros pingos de chuva, vestia meu biquíni e, apartada de tudo, me deitava no muro da vizinha, do outro lado da rua, sentindo no rosto os pingos, em cumplicidade com a água – sem frio, sem medo, sem pudor. E devo a ela, a chuva, os momentos quando eu salpicava sabão em pó na grande entrada da casa e, de mãos dadas, escorregava até a rua com meu primeiro namorado – o presságio de um amor.

Época de cabelos alinhados, coisa da moda, qual nada. Quanto mais tentador o convite ao vento, mais me deliciava. A contragosto, escancarava as janelas do carro, ou mesmo de casa, pra me despentear – sensação de liberdade.

E foi nessa mesma casa que morei com as filhas, bem depois. Sim, claro que também adotamos o Teo, um lindo Golden que jorrava alegria e provocava nas meninas correrias e crises de risos.

A vida não só seguiu, mas aconteceu.

Chegou a vez da nova casa dos meus pais, onde pude reunir o que mais de belo pode a natureza oferecer – grama vasta, árvores frondosas, beijinhos espalhados ao longo do córrego – límpido e cristalino. Macaquinhos, jacus, cachorros, gatos e pássaros – suavemente, ainda invadem as minhas noites o cheiro do mato, o clarão da lua no mato escuro, as estrelas definidas e francas, o som da água – estonteante. Agradeço pelos sonhos que lá pude sonhar – na casa da felicidade.

E o mar, tão próximo. Muitas vezes enfurecido, mas também belo e misterioso, nunca deixou de me poupar. Quanto amor, quantos diálogos, quantas ameaças.

Nem mesmo quando me atrevi a pular de ponta em mar profundo de uma rocha, como atleta experiente que nunca fui. Nem minhas pernas ensanguentadas pela força das raízes entranhadas nas pedras, nem a força das ondas, que insistiam em me levar, era o suficiente pra que eu deixasse de escalar de volta a rocha e, tremendo, pulasse novamente. Abençoada.

Eu e as águas sempre nos perseguimos. Ainda criança, na fazenda de Mateus Leme, apenas levantar a porta da represa do rio, pra me deixar levar embolada aos gravetos e terra, era motivo de uma alegria sem fim e conquista.

Lembro meus pais. Minha mãe, dedicando muitos de seus poemas aos animais. Meu pai, um advogado sério, trabalhando junto a um pintinho aconchegado em sua mesa, meio à papelada. Foi engolido o bichinho pelos perdigueiros. Socos na parede, inconformismo, revolta – foi esse o resultado.

Hoje moro em apartamento – recuperada a dor da saudade, ela muito mais hoje me afaga que entristece, ainda que presente.

Não piso mais a grama, não ouço mais o som das águas, nem mais enfrento o mar, mas descubro nossa fantástica e generosa habilidade de nos transformar, de transportar de um lugar pra outro, plasticamente, os diversos e os novos olhares que só o tempo proporciona, um aprendizado.

Me aproximei das plantas do agora como se fossem as mesmas de antes porque, na verdade, o são – das flores na varanda – únicas, como nós. Me reaproximei dos pássaros, das cachorras, do céu, do vento, da chuva, das nuvens, do sol.

Maleável e livre é nosso sentimento – de certa forma saciada, preservei-me.

Reaprendi a liberdade, sou feliz onde estou.

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