A música na minha vida

Busquei uma imagem que traduzisse a música na minha vida.

Veio-me uma fada – a minha fada.

Por sua permanência no meu tempo, e tão antiga quanto a própria música. Mas sobretudo por seu espírito contagiante e misterioso.

Posso também chamá-la de anjo da guarda ou de minha grande amiga.

Chegou bem cedo até mim. Veio voando e, aos meus olhos, com asas de borboleta.

Aos quatro anos iniciei os estudos de piano, mas, antes disso, já cantarolava em forma de gritinhos.

Considerada talentosa pelos professores, alguns deles chegaram a agradecer a quem me indicasse como aluna . A exemplo, o professor e maestro Pedro de Castro. Hoje, agradeço a generosa honra.

Chegou com rapidez o desenvolvimento – logo me vi diante de peças clássicas e exercícios técnicos complicados; esses últimos, sim, tocava com gosto e facilidade. Meus pais se orgulhavam.

Mas a dedicação por horas, como era exigido na ocasião, foi dividida com as brincadeiras de rua e um espírito curioso.

O que realmente cativava-me era a sensação de sentir e viver o exato momento em que a fadinha me buscava com seu condão mágico, levemente.

E atingia-me em cheio – passei a cantar pra mim mesma, sem perceber, em todos os lugares por onde passasse – nas ruas, no elevador, pelos corredores de escolas, no banheiro, claro.

Um episódio antigo renasce hoje em minha mente  – quando, aos meus nove anos, em viagem à noite para o Rio de janeiro com minha mãe, não parecia ter fim minha cantoria. Ela chamou-me a atenção, com receio de que eu acordasse os passageiros. Mas, pra nossa surpresa, contestaram, exigindo que eu continuasse. Cantei , e por um bom tempo, com a fada caçoando da situação.

Aos 10 anos, na madrugada, atravessava silenciosamente uma longa varanda, que cheirava a jasmim, até a biblioteca da minha mãe. Lá estava seu piano antigo de teclas de marfim, já na ocasião prometido a mim. Ele motivou-me a compor os poemas da minha mãe.

A cena se repetia, mamãe aprovava e estimulava. Mas, inesperadamente, ao voltar certo dia do colégio, encontrei a biblioteca vazia. Havia sido vendido por ela. Triste, muito triste.

Meu pai se encarregou logo de presentear-me com outro, o que ainda tenho.

Nunca mais compus.

E assim foi, até que chegasse minha adolescência.

Foi quando, no ritmo da juventude, minha mãe anunciou a chegada de um presente para o dia seguinte.

Ainda de camisola, eu e uma amiga disparamos em voo rasante até o tão aguardado objeto.

Nos detivemos diante de um sólido e pomposo instrumento – um órgão com pedaleira e dois andares de teclado. Uma alegria só.

Logo foi providenciado um professor e comigo o órgão ficou por muito tempo.

Mas, por uma razão e outra, foi levado para a casa dos meus pais, junto à natureza adornada por uma bela nascente.

Passados alguns anos, voltou para mim, trazendo-me de suas entranhas uma caranguejeira de pernas longas e cabeludas que, coitada, foi obrigada a abandonar seu lar, doce lar –e onde, de tão próximos, tornaram-se cúmplices na solidão.

 

Porém, chegou o dia de um diálogo franco. E nós, eu e a fada, o convencemos a novamente partir, e para longe.

Convictas de seu merecimento, reservei-lhe um destino que, finalmente, lhe proporcionasse a libertação do som de suas teclas – uma escola no interior de Minas.

Mas, certificando-me depois de que lá persistia o abandono do gigante, optei por trazê-lo de volta.

Hoje está comigo, como antes, acompanhado por outros instrumentos da casa, todos silenciosos. Contudo, na calada da noite, às escondidas, criam vida e formam uma banda musical. Ouço-a nos meus sonhos.

Ainda me espera, o órgão, por conselho da fadinha.

Comigo chora as notas de nossa música – mas, com afeto, nos tratamos bem.

Penso em dar-lhe uma nova vida. Afinal, temos uma história.

Pode ser nosso último trecho a percorrer.

Ainda na adolescência, nem mais tão tímida quanto antes, adotei o violão – amigo inseparável  e companheiro de festas que não aconteciam da mesma maneira sem a sua presença.

No colégio, mesmo o banheiro servia de auditório pra que as colegiais cantassem, ao som de meus simples acordes.

E lá estava novamente a minha faceira fada, – que, nesses momento de privilégio, além de iluminar, também passou a me proteger e guiar, sem que o instante perdesse seu encanto, o meu encantamento – pela música, pelo violão e por ela, a fada. Na verdade, pela vida.

Assim, o piano foi dividido entre ele e os clássicos, mas predominando o popular.

Dessa maneira fomos, eu e ela, brincando de esconde-esconde.

O tempo passou ainda mais veloz. Graduei-me em outra área, também de interesse e gosto. Tão logo me afastasse, ela persistia. Aparecia, desaparecia, aparecia e desaparecia.

Mas, passando por colégios exigentes, novas adaptações foram necessárias – a dissonância na harmonia, uma riqueza.

E, de graciosa fadinha, travessa, ela  tornou-se também firme aliada nas tempestades – sem se esquecer do tempero da alegria.

Ressurgiram ainda bons momentos junto a essa minha tenaz fada – sempre presente  em minhas participações nos festivais da música popular de Minas, ou como jurada pela Secretaria de Cultura; nas escolas, onde estudei a música, e mesmo quando cheguei a professora de voz, o que ainda exerço.

E, como num sopro, a fada me apareceu em forma triplicada – três libélulas, netas da minha mãe. E um casamento. As circunstâncias, assim, afastaram-me novamente da companheira.

As filhas hoje têm seus próprios caminhos, o casamento foi desfeito.

Hoje ela está de volta – invadiu minha casa, sem cerimônia. Armou barraca.

Desisti esquecê-la. Permito em mim as cócegas de suas asas na minha alma, misteriosamente.

Perpetuei sua presença.

Não me apressa, nem me exige virtuosismos.

Aliás, somos hoje duas avós e rimos muito juntas de toda nossa história.

Assim, vez ou outra, percebo a mágica do seu toque, sento-me ao piano – já um pouco maltratado pelo tempo, seleciono velhas músicas e me concentro.

Sinto-a no movimento de meus dedos, no ritmo dos meus passos e do coração; na vibração dos sons do meu corpo e dos que me rodeiam. Ou mesmo no meu silêncio.

Minha fada tem o meu nome e o mesmo endereço. Adormece comigo e, juntas, assistimos ao amanhecer. Temos os mesmos pensamentos.

A música na minha vida ou a minha vida na música?

Serei eu a fada?

Beth Neves – jornalista, professora de canto, aposentada pelo serviço público

 

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